Karen Lima

é fotógrafa, pesquisadora e jornalista de Petrolina (PE). Desde 2017, registra pessoas e suas histórias em produções que transitam entre fotojornalismo e projetos autorais sobre ancestralidade, cotidiano e afetos.

É autora das exposições “Benza” (2025) e “Povoadas” (2023), esta última baseada no fotolivro homônimo lançado em 2022. Possui fotografias publicadas em jornais, livros e revistas, além de experiência em coberturas de festivais culturais e em agências de fotografia.

Em 2025, participou das exposições pernambucanas “Estados da Arte” e “Mostra Foto Preta”, e foi premiada no concurso “Petrolina: Um Novo Olhar”

Percepções sobre o olhar de Karen Lima para as benzedeiras

No Brasil, este país de dimensão continental cuja História não é de toda consultada, mas sim sentida e marcada nos rostos de seu povo, suas manifestações culturais devem ser eternizadas, seja na escrita, nas artes, ou como —belamente— no trabalho fotográfico de Karen Lima, em imagens.

A imagem não se trata apenas de um objeto qualquer, que com um tempo é por ali deixado de lado. Mas, sim um registro, uma fonte de conhecimento, uma marca da memória. E, passados os anos, torna-se uma fonte histórica que deixará um tempo representativo de uma época, de uma pessoa, de um povo. A fotografia ilustra, fala, comenta, sustenta, dá significado ao que foi fotografado, estando, contudo, marcando aquilo que é, o que permanece, ou aquilo que foi.

Nesta casa que chamamos de Brasil, as manifestações de fé se sobrepõem muitas das vezes aos contextos sociais e políticos. E, ao mesmo tempo, se configuram em resistência. As benzedeiras, uma tradição secular, mescla da diversidade étnico-racial de povos originários, tradições afroamericanas e catolicismo europeu, ocupam espaços, se fundamentam, e permanecem.

Os espaços ocupados por essas mulheres de fé refletem um tempo em que a medicina acadêmica não era pra todos, numa dada época em que as pessoas a elas recorriam em busca das curas do corpo e também da alma, para tirar quebranto, sóis da cabeça, da moleza do corpo, da inveja e dos sortilégios. O “leva esse menino pra Mariazinha rezar, ele tá com quebranto”, “o Jão tá com espinha de peixe engasgado” ou “Lúcia tá com a espinhela caída” é tão comum quanto a água, a mesma água para tirar sóis da cabeça ou do aspergir das benzeduras feitas com as folhas de verde vivo usadas por essas mulheres.

Nos Sertões pernambucanos as benzedeiras moram, como em outros espaços espalhados pelo Brasil. Mas, aqui, no Sertão de Pernambuco, elas mantêm suas atividades, firmes, sérias, porque este trabalho não é algo qualquer, mas sim um ofício, deixado por suas mães, avós, bisavós, tataravós… leva um legado ancestral, uma tradição pela qual deve ser perpetuada. Com empenho e zelo, o mal do corpo não pode afetar a alma.

A exposição fotográfica de Karen Lima traz a imagem dos sertões na personificação de mulheres de fé. A beleza se apresenta nelas. Impactam, nos mobilizam. Ao mesmo tempo, nos transcende a infância que éramos levados a serem benzidos com aquela senhora com ramos verdes e escutando o silêncio, ou os murmúrios dos lábios dessas célebres. Uma época ainda vívida no século XXI e que devamos, com imenso prazer, rememorar e, sobretudo, prestigiar.

Osnar da Costa
Doutorando em História – UFSM,
Professor, escritor e historiador.
Ago, 2025.